As organizações denunciam proposta que permite rusgas domiciliárias, policiamento de serviços públicos e uso de perfil racial.

18 de fevereiro de 2026

Mais de 80 redes e organizações europeias juntaram-se à iniciativa da Médicos do Mundo e da PICUM (Plataforma para a Cooperação Internacional sobre Migrantes Indocumentados) e subscreveram uma declaração conjunta a alertar para as graves consequências do Regulamento de Deportação (“Retorno”) atualmente em negociação na União Europeia.

O documento sublinha que a proposta abre caminho a práticas semelhantes às implementadas nos Estados Unidos, onde a vigilância migratória transformou serviços públicos em espaços de controlo e desencorajou o acesso de pessoas indocumentadas a cuidados e apoios essenciais.

A declaração identifica ainda o risco de institucionalizar práticas como rusgas domiciliárias, policiamento de serviços públicos e o uso de perfil racial para detetar pessoas indocumentadas, com impactos profundos nos direitos humanos e na saúde pública.

A proposta legislativa em discussão pretende tornar obrigatória a deteção de pessoas indocumentadas em diversos contextos do quotidiano, incluindo serviços públicos e infraestruturas de transporte. Organizações da sociedade civil e especialistas em direitos humanos têm alertado que estas medidas podem transformar hospitais, escolas e outros serviços essenciais em espaços de vigilância, afastando pessoas vulneráveis dos cuidados de saúde, da proteção social e da educação.

As mais de 80 organizações signatárias apelam aos decisores europeus para rejeitarem o Regulamento de Deportação e garantirem que as políticas migratórias não assentam em práticas de vigilância, suspeição racializada ou criminalização com base no estatuto administrativo. 

Leia abaixo a declaração na íntegra

 

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Não à legislação da UE que permita rusgas domiciliárias, policiamento de serviços públicos e o uso de perfil racial

 

A UE está atualmente a negociar um Regulamento de Deportação (“Retorno”) para expandir e normalizar rusgas e medidas de vigilância em matéria de imigração nas nossas comunidades. Pretende obrigar os Estados-Membros a “detetar” pessoas indocumentadas – transformando espaços do quotidiano, serviços públicos e interações comunitárias em ferramentas de aplicação da lei de imigração ao estilo do ICE. Nos EUA, isto já conduziu a uma crise de saúde pública, na qual pessoas indocumentadas evitam aceder a cuidados médicos básicos por receio de serem denunciadas ou raptadas.

Na prática, as medidas de deteção propostas pela Comissão podem resultar em (e, na verdade, algumas delas já estão a acontecer em vários Estados-Membros da UE):

• Rusgas policiais em residências privadas, permitindo que as autoridades entrem em espaços habitacionais para procurar migrantes indocumentados - sem mandado judicial - bem como em empresas e abrigos geridos por organizações humanitárias.

• Rusgas policiais em espaços públicos - como a mobilização, por França, de 4.000 agentes policiais em junho de 2025 para realizar controlos alargados em estações rodoviárias e ferroviárias, com o objetivo de deter pessoas indocumentadas, ou a introdução, pela Bélgica, de controlos internos de fronteira em autoestradas, estações e aeroportos.

• Vigilância e tecnologia - como a recolha massiva de dados pessoais e a sua partilha entre forças policiais em toda a UE, e o uso de sistemas de identificação biométrica para rastrear os movimentos de pessoas e aumentar o policiamento de migrantes indocumentados e pessoas racializadas.

Obrigações legais de comunicação impostas a autoridades públicas - como aquelas que têm sido impostas ao serviço de assistência social na Alemanha desde a década de 1990, ou as que se encontram em discussão na Suécia.

• Uso de perfil racial - Verificações e controlos baseados na aparência, na língua ou na origem percecionada, em vez da conduta individual, levando à segmentação discriminatória de comunidades racializadas, já uma prática rotineira na Europa.

Esta ameaça é real e imediata. A proposta da Comissão Europeia promove explicitamente medidas de deteção e, em dezembro do ano passado¹, os Estados-Membros aprovaram uma posição que exige políticas ainda mais duras, incluindo rusgas policiais em residências privadas para localizar migrantes indocumentados.² Além disso, a maioria dos grupos políticos no Parlamento Europeu, desde os liberais até à extrema-direita, apresentou alterações que apoiam a inclusão obrigatória de medidas de deteção.

As medidas de deteção criam medo, discriminação e perseguição, e quebram laços sociais e comunitários. Dissuadem as pessoas de aceder a cuidados de saúde essenciais (incluindo cuidados relacionados com a gravidez, tratamento de doenças crónicas e vacinas), bem como à educação e a serviços sociais; aprisionam as pessoas em situações de violência, exploração e abuso; corroem a confiança entre profissionais e as pessoas a quem prestam serviço; permitem o uso do perfil racial e a discriminação sistémica; e violam direitos fundamentais à privacidade e à proteção de dados.

Estes riscos têm sido levantados a nível internacional. Em 26 de janeiro, 16 Relatores Especiais, Peritos Independentes e Grupos de Trabalho das Nações Unidas dirigiram uma carta conjunta à Comissão Europeia, ao Parlamento Europeu e ao Conselho da UE, alertando que o Regulamento de Deportação proposto pode impor obrigações de comunicação a profissionais, desencorajando o acesso a serviços essenciais e minando direitos fundamentais.

Integrar medidas de deteção em legislação vinculativa da UE iria financiá-las, legitimá-las, ampliá-las e normalizá-las em toda a Europa, além de legitimar práticas ilegais como o uso do perfil racial. Isto consolidaria um sistema punitivo, alimentado por retórica de extrema-direita e baseado em suspeição racializada, denúncia, detenção e deportação. Em vez de proteger direitos fundamentais, a UE está a caminho de codificar uma ideologia de criminalização que visa pessoas apenas pela sua situação administrativa. 

A Europa sabe, pela sua própria história, aonde podem conduzir sistemas de vigilância, estigmatização e controlo. 

Apelamos a decisores políticos, autoridades públicas, trabalhadores de serviços públicos, organizações da sociedade civil e comunidades em toda a Europa para rejeitarem a deteção em todas as suas formas e mobilizarem-se contra políticas que criminalizam pessoas com base no seu estatuto de residência e que comprometem direitos fundamentais para todos.

A Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia devem ouvir estas preocupações e rejeitar o Regulamento de Deportação.

 

¹ Artigo 6.º, Proposta de Regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho que estabelece um sistema comum para o retorno de nacionais de países terceiros que permaneçam ilegalmente na União, e que revoga a Diretiva 2008/115/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, a Diretiva 2001/40/CE do Conselho e a Decisão 2004/191/CE do Conselho.
² Artigo 23.º, alínea (a), “Medidas de investigação”, Abordagem Geral do Conselho relativa à proposta de Regulamento Retorno.

 

Aceda abaixo à lista das 88 organizações signatárias

Redes/organizações europeias:
1. Access Now
2. Border Violence Monitoring Network
3. Bridge EU
4. Equinox Initiative for Racial Justice
5. Eurochild
6. European Disability Forum
7. European Federation of Public Service Unions (EPSU)
8. European Network on Statelessness (ENS)
9. European Roma Grassroots Organisations (ERGO) Network
10. European Sex Workers’ Rights Alliance (ESWA)
11. European Federation of National Organisations Working with the Homeless (FEANTSA)
12. ILGA-Europe
13. International Planned Parenthood Federation – European Network (IPPF EN)
14. Jesuit Refugee Service Europe
15. Missing Children Europe
16. Médecins du Monde International Network
17. Platform for International Cooperation on Undocumented Migrants (PICUM)
18. Quaker Council for European Affairs
19. Statewatch
20. Trans Europe and Central Asia (TGEU)

Organizações nacionais:
21. 11.11.11
22. Africa Advocacy Foundation
23. Algeciras Acoge
24. AlgorithmWatch
25. Apoyo Positivo
26. ARCI
27. Asociación Evangélica Nueva Vida
28. Asociación Madrileña de Salud Pública (AMaSaP)
29. Association for Integration and Migration (SIMI)
30. Caritas diocesana di Pesaro
31. Centro Sociale Ex Canapificio
32. Cesida (National Coordinator of HIV and AIDS)
33. CIRÉ
34. Collective Aid
35. Community Rights in Greece
36. Consorzio Italiano di Solidarietà (ICS)
37. Convenzione dei Diritti nel Mediterraneo
38. Coordinamento Fiorentino contro il Riarmo
39. Coordinamento Nazionale Comunità Accoglienti (CNCA)
40. COSPE
41. Defence for Children International Czechia
42. Defence for Children International Italy
43. Défense des Enfants International Belgique
44. Dynamo International
45. Europasilo – Rete Nazionale per il Diritto d’Asilo
46. Federación SOS Racismo
47. Finnish Refugee Advice Centre
48. Fondazione Città Solidale ETS
49. Forum Per Cambiare l’Ordine delle Cose
50. Fucina per la Nonviolenza
51. Fundación Cruz Blance
52. Fundación Entreculturas
53. Fundación de Solidaridad Amaranta
54. Greek Council for Refugees (GCR)
55. Gruppo Melitea
56. Hermes Center
57. Institute Novact for Nonviolence
58. International Child Development Initiatives
59. Irídia-Center for the defense of human rights
60. Iuventa – Jugend rettet
61. Jesuit Refugee Service Portugal
62. La Cimade
63. Missing Voices (REER)
64. Mission Lifeline International e.V.
65. Mobile Info Team
66. Movimiento de Mujeres Migrantes de Extremadura
67. Mujeres Supervivientes
68. M.V. Louise Michel
69. Oxfam Novib
70. Pilotes Volontaires
71. Progetto Accoglienza e Integrazione Un sole per tutti
72. Red Acoge
73. Refugees in Libya
74. Rete Vesuviana Solidale
75. Right to Protection Charitable Foundation
76. RiVolti ai Balcani – Diritti in Movimento
77. Salvamento Marítimo Humanitario (SMH)
78. Sea-Watch e.V
79. Sharazade – Cultura e spettacolo senza frontiere
80. SolidarityNow
81. Stichting LOS
82. Studio legale D’apruzzo
83. The Swedish IMER Association
84. Tunisian Forum for Economic and Social Rights FTDES
85. VERLATA SOC. COOP. SOCIALE A R.L.
86. Watch the Med AlarmPhone
87. WILPF ITALIA
88. WISH (Women in Solidarity House)