Novo relatório da Médicos do Mundo reúne mais de 47 testemunhos de profissionais de saúde e da área social de 15 países, revelando os desafios, obstáculos e formas de resistência de quem acompanha pessoas que recorrem à Interrupção Voluntária da Gravidez.

28 de setembro de 2026

Por ocasião do Dia Internacional do Aborto Seguro, que se assinala hoje, a Médicos do Mundo dá a palavra a quem, no seu quotidiano, acompanha pessoas que recorrem à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG).

Através de mais de 47 testemunhos recolhidos em 15 países, em contextos tão distintos como Myanmar, França, Benim ou México, o relatório "Cuidar, Resistir" dá voz a ginecologistas, parteiras, médicos/as, profissionais da área social e outros/as profissionais empenhados/as no acesso à IVG. Estes testemunhos refletem a diversidade das realidades enfrentadas pelas pessoas que recorrem à IVG e mostram o que significa acompanhar quando o acesso continua a ser dificultado, estigmatizado ou criminalizado.

 

Ouvir, informar e acompanhar para uma decisão livre e esclarecida

 

“O nosso papel consiste em garantir cuidados centrados na pessoa, fornecer informação clara, assegurar um acompanhamento sem julgamentos e respeitar a sua autonomia.”

 

Acompanhar uma pessoa no seu processo de IVG significa permitir-lhe tomar uma decisão livre e informada, num ambiente de respeito e sem que os/as profissionais de saúde decidam por ela. 

“Cuidar não consiste apenas em tratar um corpo: pode também restaurar a dignidade, a segurança e a confiança.”

Mas os testemunhos mostram também o que acontece quando as leis ou as práticas do sistema de saúde constituem um obstáculo a esse acompanhamento.

“Muitas vezes pensei que, se a tivesse simplesmente encaminhado para serviços competentes, talvez ainda estivesse viva hoje. Esta experiência mudou profundamente a minha perceção da IVG e da responsabilidade dos/as profissionais de saúde. Foi um ponto de viragem no meu percurso.”
“As leis restritivas não impedem as pessoas de necessitar de uma IVG. Limitam-se a eliminar as possibilidades de recorrer a uma IVG segura e a penalizar as mulheres mais vulneráveis.”

 

 

Quando cuidar se torna um ato de resistência

 

Em muitos contextos, acompanhar pode tornar-se uma forma de resistência. Uma resistência que não consiste apenas em opor-se, mas também em criar espaços de autonomia e recuperar o poder de decisão sobre a própria saúde e o próprio corpo.

“Para mim, também é uma forma de resistência. É resistir à estigmatização, à ideia de que outra pessoa possa decidir o que fazemos com os nossos corpos.”

 

Quatro ensinamentos para agir:

Os testemunhos reunidos identificam quatro desafios fundamentais que complementam as recomendações mais abrangentes da Médicos do Mundo para garantir o direito e o acesso efetivo à IVG:

 

  1. Proteger quem torna o acesso possível, garantindo que profissionais e prestadores de cuidados possam atuar sem sofrer ameaças, violência, discriminação ou perseguição.

  2. Garantir o acesso a informação fiável e transformar a narrativa sobre a IVG, combatendo o estigma e a desinformação.

  3. Apoiar os movimentos feministas e comunitários, reconhecendo o seu papel essencial na defesa dos direitos sexuais e reprodutivos e no acesso aos cuidados.

  4. Reconhecer e apoiar a IVG medicamentosa autogerida, permitindo que as pessoas tenham maior controlo sobre o seu percurso de cuidados, de forma segura, informada e digna.

 

 

Envolver-se, tomar a palavra, agir em conjunto: é tempo de passar à ação!

 

Perante os retrocessos nos direitos sexuais e reprodutivos e o crescimento de discursos que culpabilizam e estigmatizam a IVG, o silêncio e a inação deixaram de ser opções. Os/as profissionais de saúde e todas as pessoas que acompanham quem recorre à IVG têm um papel essencial a desempenhar.

Cuidar é um ato de resistência. Cabe-nos agir para que ninguém seja obrigado a arriscar a sua saúde, a sua dignidade ou a sua vida para decidir sobre o seu corpo e o seu futuro.

 

Consulte o relatório "Cuidar, Resistir" (disponível em inglês)