MdM – Então, acabou por conseguir relacionar estes fenómenos com a guerra?
DM – Sem dúvida. O conflito no Congo não envolve grupos extremistas religiosos, nem é um conflito entre Estados. É uma guerra motivada por interesses económicos e que tem uma estratégia destinada a destruir as mulheres do país. Em 2011, assistimos a uma redução no número de violações e pensámos que tudo isto estivesse perto do fim. Mas, em 2012, a guerra recomeçou, e os casos de abuso sexual voltaram a aumentar. O fenómeno está totalmente ligado à situação de guerra. A violação devia ser encarada como uma arma de destruição maciça em situações de guerra. Estou determinado a combater estas atrocidades. Fizemo-lo [comunidade internacional] com as armas químicas e biológicas e podemos fazer o mesmo com os crimes sexuais.
MdM – O cuidado que tem com as vítimas vai muito para além de uma cirurgia. Como se processa o programa de auxílio às vítimas?
DM – Estabelecemos um padrão de atendimento às vítimas. Antes de as levar para a mesa de cirurgia fazemos um exame psicológico. Preciso de saber se estão em condições de resistir à operação. Após a cirurgia, ou apenas cuidados médicos, encaminhamos as pacientes para um programa que lhes oferece apoio socioeconómico. A maioria das vítimas chega aqui sem nada, nem sequer roupas! Temos de as alimentar e cuidar delas. Depois do fim do tratamento médico, se não forem capazes de se sustentar, acabam novamente por ficar vulneráveis. Ajudamos as mulheres a desenvolver novas habilidades e as meninas a voltar à escola. A quarta etapa do nosso programa de auxílio diz respeito a questões legais. Muitas vezes, elas conhecem a identidade dos agressores e temos advogados que ajudam a tentar levar os casos à justiça.
MdM – Talvez por todo este seu trabalho, chegou a ter de fugir do país…
DM – Fomos para a Suécia e, de seguida, para Bruxelas, depois de homens armados terem entrado no meu carro quando estava a chegar à garagem de casa. Retiraram-me do veículo e, como um dos meus seguranças me tentou resgatar, começaram a disparar e mataram-no… Eu agachei-me enquanto continuaram a disparar. Não sei como sobrevivi. Eles fugiram no meu carro sem levar nada e só depois descobri que as minhas duas filhas estavam em casa quando eles chegaram. Ficaram o tempo todo de armas apontadas às minhas filhas à espera que eu chegasse. Foi terrível. Não sei quem eram as pessoas, nem por que me atacaram.
MdM – Depois desta situação, o que o motivou a voltar ao Congo?
DM – O que me inspirou a retornar foi a determinação das mulheres congolesas no combate a estas atrocidades. Muitas tiveram coragem para protestar contra o ataque à minha família. Ainda juntaram dinheiro para pagar a minha passagem de volta ao Congo; e falamos de mulheres que não têm nada, vivem com menos de um dólar por dia. Organizaram-me uma recepção no aeroporto… Depois disso não podia dizer que não.
MdM – Como é a sua vida agora desde que regressou?
DM – A minha vida teve de mudar desde que voltei. Vivo no hospital e tomo uma série de precauções por questões de segurança. Perdi parte da minha liberdade. As mulheres têm-se revezado para vigiar o hospital. Grupos de 20 voluntárias fazem turnos, dia e noite, para tentar garantir a minha segurança. E elas não têm armas, nada! O entusiasmo delas dá-me confiança para continuar a trabalhar. [O hospital encontra-se sob protecção permanente da Missão das Nações Unidas para o Congo – MONUSCO]
MdM – O que é certo é que não são apenas as mulheres congolesas a reconhecer o seu trabalho. Já recebeu, em 2013, o prémio da Fundação Right Livelihood, conhecido como o Nobel Alternativo dos Direitos Humanos; em 2014, o prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, o prémio mais elevado dos Direitos Humanos do Parlamento Europeu; em 2015, o Prémio Gulbenkian e, claro, o Prémio Nobel da Paz, em 2018. Como se sentiu quando soube?
DM – Estava na sala de operações! De repente, as pessoas entraram e deram-me as notícias. Consigo ver os rostos de muitas mulheres que estão contentes por serem reconhecidas.
MdM – A guerra civil no seu país já provocou mais de seis milhões de mortos. No seu hospital, desde 1999, foram tratados mais de 50 mil sobreviventes de violência sexual. Chega a realizar mais de 10 cirurgias por dia. Que mensagem quer continuar a passar à comunidade internacional?
DM – Continuo a ter muito por dizer. Senti que precisava de sair do bloco operatório e informar o Mundo do que acontece aqui, encontrar autoridades para que façam tudo o que puderem para trazer de volta a paz. Vemos mais e mais mulheres a chegar do centro do país, onde antes não havia conflito. Isso é resultado de uma metástase da violência e dos acordos de paz que não se respeitam. Na verdade, é preciso que estes grupos sejam desarmados mentalmente, no plano psicológico, o que não está a ser feito. O corpo da mulher é transformado num verdadeiro campo de batalha. Em cada mulher violada vejo a minha mulher, em cada criança violada vejo os meus próprios filhos. Como posso calar a minha voz? Gostaria de não ter de falar mais destes crimes horrorosos de que são vítimas as minhas contemporâneas. Mas como posso ficar em silêncio quando sabemos que estes crimes contra a Humanidade são planeados por razões económicas? Não haverá paz e desenvolvimento social e económico sem respeito pelos Direitos Humanos.